[Resenha] Água Viva

25 de julho de 2019

Título: Água Viva
Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 224
Ano: 2019
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*Cortesia da editora
Sinopse: Considerado o livro mais misterioso e autobiográfico de Clarice Lispector, Água viva, acaba de ganhar uma edição especial com capa dura e sobrecapa e reúne pela primeira vez em um mesmo volume os datiloscritos de Objeto Gritante e a versão final de Água viva, além de ensaios de Alexandrino Severino, Sonia Roncador, Ana Clara Abrantes e Teresa Montero e correspondência do filósofo José Américo Motta Pessanha. Já o prefácio ficou a cargo do crítico e pesquisador Pedro Karp Vasquez e a concepção visual e projeto gráfico são de Izabel Barreto.
Com este pequeno grande livro, Clarice Lispector conseguiu a façanha de descobrir um jeito transformador de escrever sobre si mesma. Um triunfo tão desconcertante que despertou assombro semelhante ao que a jovem autora provocara com sua estreia na ficção, o romance Perto do coração selvagem, de 1943. Um livro refundador. Da literatura e da própria Clarice.
Resenha
Clarice Lispector é um fenômeno da literatura nacional e Água Viva, antes chamado Objeto Gritante, foi a única obra que a autora teve dúvidas sobre publicar, ela chegou a pensar em não editar o livro. Pediu conselhos a amigos e os ouviu atentamente, fazendo as correções necessárias para que a obra chegasse às mãos do público.

Mas por que Clarice hesitou em editar a obra? O livro é um trabalho completamente diferente do que a autora havia publicado até então. Ela escreve o que lhe vem à mente, passa a ideia de que foi algo escrito no calor do momento, um tipo de diário, pensamentos desconexos sobre diferentes assuntos, pensamentos sobre a vida e sobre a morte, sobre Deus, medos, anseios... um texto no qual se lê a Clarice como pessoa, como mulher. Foi aconselhada por seus amigos a fazer pequenas alterações para que não tivesse tanta exposição.
 “Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando.”
Na primeira versão, a narradora do livro era uma escritora que estava escrevendo uma carta, após a edição essa narradora passou a ser uma pintora que também está escrevendo uma carta e pintando uma tela. Na carta, a personagem conta um pouco do seu cotidiano e fala da tela que está pintando. Através de metáforas, Clarice mergulha em seus pensamentos e leva o leitor consigo, somos invadidos, impactados com suas palavras.
“Escrevo em signos que são mais um gesto que voz. Tudo isso é o que me habituei a pintar mexendo na natureza íntima das coisas. Mas agora chegou a hora de parar a pintura para me refazer, refaço-me nestas linhas. Tenho uma voz. Assim como me lanço no traço do meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer.”
A narradora do livro quer expressar em palavras aquilo que se pinta, aquilo que sente enquanto pinta e começa a escrever seus sentimentos e pensamentos. Objeto Gritante mostrava uma escritora e tinha muito da Clarice nos textos, tornando-o autobiográfico, a mudança na profissão de escritora para pintora tem o intuito de reduzir essa característica da obra, em Água Viva temos o melhor das duas versões. Clarice mantém a ideia principal de Objeto Gritante, mas faz cortes no texto, reescreve algumas passagens e só após a edição ela rebatiza a obra como Água Viva.
“Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados. E preciso entender enquanto estou viva, ouviu? porque depois será tarde demais.”
Minha impressão
Ler Água Viva foi uma experiência única, Clarice Lispector escreve com tanta intensidade que é impossível não sentir o impacto de suas palavras. O livro é como se fosse um mergulho por seus pensamentos, somos levados a um labirinto cheio de caminhos e com infinitas possibilidades. É uma obra atemporal. Embora seja um livro de poucas páginas, não se engane, ele não é para ser lido rápido, é preciso se dedicar completamente à leitura e decifrar suas mensagens. 

Essa edição especial em capa dura da Editora Rocco conta com manuscritos e ensaios inéditos, possibilitando o leitor a comparar as duas versões da obra. Podemos analisar as passagens que foram cortadas na transição de Objeto Gritante para Água Viva com anotações da Clarice. Os textos de José Américo Motta Pessanha, Alexandrino E. Severino, Sônia Roncador, Ana Claudia Abrantes e Teresa Montero explicam sobre o momento pelo qual Clarice passava ao escrever o livro e como foi o processo dele.

Mesmo depois de grandes mudanças no texto original para a versão publicada, ainda é possível perceber a obra como um desabafo e suas indagações tocam o leitor. Eu marquei muitos trechos com os quais me identifiquei ou que, de algum modo, mexeram comigo. Água Viva é uma preciosidade da literatura nacional. 

Minha nota para o livro

3 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Nunca li nada da Clarice, apesar de ter bastante curiosidade. Não conhecia essa obra ainda, mas fiquei louca para ler, parece ser mesmo uma leitura única. Adorei a resenha e dica!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  2. Oiii Bea

    A edição está maravilhosa e dá pra sentir na resenha o quanto a obra surpreende, legal saber que mesmo sendo curtinho requer do leitor atenção e entrega, Clarice era mesmo um gênio às vezes dificil de descifrar as palavras na primeira vista, nossa, deu vontade de conferir essa obra dela, vou anotar a dica.

    Beijos, Alice

    www.derepentenoultimolivro.com

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  3. Ainda não li nada da autora, acredita? Vendo sua impressão sobre o livro, confesso que me despertou um interesse enorme! É bom saber que é aquele livro que te faz refletir e tudo mais. Gostei bastante. :D

    Beijos,
    Blog PS Amo Leitura

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