[Resenha] O Sol Vinha Descalço

29 de abril de 2020

Título: O Sol Vinha Descalço
Autor: Eduardo Rosal
Editora: Reformatório
Páginas: 94
Ano: 2016
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*Cortesia da Oasys Cultural
Sinopse: O poema de Eduardo Rosal, vencedor do Prêmio Maraã de Poesia, aqui em O sol vinha descalço, fez a opção da verticalidade. Com isso eliminou ou reduziu a distância que separa poetar e pensar, e gerou novos espaços nos quais os objetos podem tornar-se sujeitos, como que inesperadamente. E tudo sob os auspícios do "o sal-sol do mundo". Mas o poeta evitou sabiamente calçar ou permeabilizar o sol. Quis simplesmente compreender porque "vinha descalço", e se deixava tensionar entre "abismo e ponte". O texto sujeito alarga o espaço do texto objeto. Recolhe o contexto, mas não se deixa subjugar por ele. A forte aliança de texto e contexto, articulada com perícia, alimenta a ação do fazer poético. É quando a língua, passagem obrigatória, se transforma em linguagem, instância instauradora. O texto irrompe do contexto, e logo proclama a sua independência. Carregando consigo o leve peso das palavras, e a sonoridade cifrada do silêncio. A temerária jornada humana prospera claramente, sem recorrer à exaltação. O verdadeiro poeta não precisa gritar para ser escutado. Os excessos, a hemorragia verbal, a poluição sonora, são capítulos menores de um estranho manual de contravenções literárias. Os torrenciais que me perdoem, mas o comedimento é fundamental.
Resenha
“Há sempre um anzol de palavras fisgando almas?”
Em O Sol Vinha Descalço o poeta Eduardo Rosal nos entrega poemas de excelente qualidade, para deleite dos amantes do gênero. São poemas que nos fazem refletir, é preciso parar para senti-los ao terminar a leitura e pensar naquilo que foi lido. As palavras utilizadas para compor cada um deles parecem ter sido escolhidas cuidadosamente, pensadas carinhosamente para proporcionar ao leitor momentos únicos.

Véspera Ontem
Noite. Deitado na cama
olho o silêncio das estrelas de plástico
que um dia meu pai colou no teto.
Quando nascer noutro qualquer lugar,
que minha avó me pegue pela mão.

Imagino uma aranha com esmero, 
sozinha, tecendo a escuridão.

Talvez ela saiba: A partir de amanhã
não terei pai, mãe, irmãos, Ontem,
- tempo que habito? - mapas da pele,
almas
a um segundo dos outros.

para abafar
o estralar dos móveis da casa e
algumas conversas com o teto. Almas
- que poderei tocar? - fragilidade
que não quebra no peito.

Ontem... aqui,
agonias alheias... minhas: vozes no corredor, 
dinossauros na janela, infância.
Ontem... século por vir.
Os poemas se completam, um dá continuidade ao tema que foi exposto anteriormente e todos formam um belíssimo cenário. A poesia concreta está bem presente nos poemas de Eduardo Rosal, eles estão estruturados de maneira irreverente. A escrita do poeta é marcante e ele fala sobre alguns assuntos, dentre eles posso destacar questionamentos sobre a vida, a saudade de tempos que temos na memória, indagações sobre o futuro e o amor pela família.

Mãe
Quantas vezes, mãe, o cheiro de alho em suas mãos.

O silêncio circundava as panelas no fogo. Continuo olhando.

Você temperava os dias. E eu aprendia o sabor da palavra amor.

O cheiro não te esqueceu. Mora nos meus dedos. Vivo só.
Aquém do que vivemos sou mãe de mim
e de tantos, em versos.

Eis aqui, mãe, nosso segundo parto.
Minha impressão
Eu gosto muito de poesias e ler uma obra com tamanha qualidade me enche o coração de alegria. Embora seja amante do gênero, não me considero grande entendedora, sou apenas uma pessoa apaixonada por poesias e que gosta de compartilhar esse amor e, quem sabe, incentivar outros leitores a darem uma chance a este gênero tão esquecido e– por vezes – vítima de preconceito. Então, quando surge a oportunidade de recomendar uma obra como essa e ainda mais sendo nacional eu fico muito feliz.

Sinto que me faltam palavras para falar sobre este livro, gostaria de conhecer mais do nosso vocabulário para fazer jus à obra, mas espero que com a minha humilde resenha eu consiga expressar um pouco do quanto eu gostei da leitura e da qualidade que o livro possui.

Quem nunca leu poesias ou que não curte muito pode sentir certa dificuldade com a leitura, ainda assim, para estes leitores, é uma ótima indicação para se aprofundar mais no gênero. Quem já gosta, certamente vai ter uma experiência prazerosa com esta leitura.

Minha nota para o livro

7 comentários:

  1. Oi, Beatriz como vai? Livros de poemas e ou poesias são excelentes. Este eu não li, mas certamente é um livro profundo. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Muito obrigada, querida Beatriz. Que bom que gostou do livro. E que linda foto sua, no blog!

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  3. eu adoro livros de poesias! Sempre me fazem parar pra pensar em coisas que eu normalmente não pensaria e eu acho que a posia é a mmelhor forma de fazer mudanças!
    Não conhecia o autor, mas adorei a sua dica, já quero ler esse livro! As poesias que você transcreveu são maravilhosas, nossa!!

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  4. Olá, tudo bem? Dica super anotada Bea! Eu não leio muito o gênero, mas sempre tenho vontade de explorar mais e conhecer novas obras, o que veio a calhar nesse meio. Amei ver sua empolgação com o mesmo, e com certeza irei gostar. Ótima resenha!
    Beijos

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  5. Oi Beatriz!
    Assim como você, não me considero uma entendedora do assunto, mas gosto muito de ler poesia.
    Pra mim, elas são palavras que chegam mais perto de explicar muitos sentimentos que as vezes parecem inexplicáveis.
    Adorei sua resenha e se quer uma dica, veja os livros da Clarice Sabino, acredito que você vá gostar!

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  6. Que peculiar o nome dessa editora, não conhecia o livro e como você sabe, aprecio poesias e o eu lírico, neste caso e pelas poesias que você trouxe, parte de uma subjetividade íntima, o cheiro do alho também me faz recordar de minha mãe.

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